Raúl
Baduel
Oposição «está a brincar com fogo»
Gilberto Lopes ( en Caracas)
/ Diario de Noticias (Portugal) / 18 de Dezembro de 2002
|
A
Venezuela está ameaçada pela violência política,
o país está semi-paralisado por uma greve que entrou
já na terceira semana, para exigir a renúncia do Presidente
Hugo Chávez. Um dos principais objectivos da greve é
a paralisação da indústria mais importante
do país, a do petróleo. «Estão
a brincar com fogo, com uma lata de gasolina nas mãos»,
disse ao DN o general Raúl Baduel, pára-quedista,
comandante da IV Divisão Blindada, com sede na cidade de
Maracay, 105 quilómetros a oeste de Caracas.
Foi daqui que saíram, na noite de 13 de Abril passado, os
três helicópteros com 48 homens para resgatar Chávez
das mãos de um comando da marinha, na ilha de La Orchila,
onde um avião americano esperava, provavelmente para o levar
para o exterior. Abortaram assim uma tentativa de golpe de Estado
que, durante pouco mais de 24 horas, levou a oposição
ao Poder. Baduel comandou a operação.
Nunca levanta a voz, mas os seus olhos brilham e não esconde
a dor, quando conta como opositores foram insultar o seu pai ao
hospital onde estava internado. Ou quando uma mulher o insultou,
diante das câmaras de televisão, e, depois, os meios
nada mostraram. «Se eu tivesse feito um gesto contra
essa mulher, todos o teriam divulgado. São os meios de comunicação
social que contribuem para criar este clima de ódio»,
diz o general, tocando um dos temas mais polémicos nesta
crise política. A imprensa assumiu um papel militante, renunciando
a toda a imparcialidade, passando a representar a oposição.
Na semana passada, os donos dos principais canais de televisão
e jornais do país tiveram de explicar a sua posição
aos jornalistas internacionais, que não entendiam a atitude
por eles adoptada.
Na opinião de Baduel, «os meios criam um clima
permanente de perigo e desassossego, obedecem a interesses, actuam
como agentes políticos de alguns sectores contra o direito
dos venezuelanos a ter uma informação objectiva».
O exército está preocupado com a situação.
O seu comandante, o general Júlio Garcia Montoya, leu, pela
TV, enquanto estávamos com Baduel, um comunicado, criticando
a greve do petróleo, que qualificou de «sabotagem»
e «atentado contra a sobrevivência do Estado».
Com uma linguagem cuidadosa, depois de ouvir o seu comandante, Baduel
afirmou que «a insistência de alguns sectores
numa solução abrupta» para a crise,
«fora dos limites da Constituição, pode
potenciar as condições para um processo de violência
que não desejamos».
Para Baduel, os sectores em greve na empresa pública Petróleos
de Venezuela (PDVSA) «usam os recursos de uma empresa
do Estado para exigir uma saída inconstitucional do Presidente».
A oposição acusou o Governo e as forças armadas
de trazerem estrangeiros para mobilizar os barcos petroleiros paralisados.
Baduel afirma não ter informação sobre isso.
Nestas condições, qual é o limite para o exército?
Até quando estará disposto a esperar uma solução
para a crise? Há duas semanas, o exército referiu
que sabe «em que situações actuar e
em que situações permanecer à margem».
Mas os limites, às vezes, não são claros. Um
desses limites é a defesa da Constituição e
da legalidade. «Parece que aqui há quem pense
que os outros não têm direito a ocupar os cargos que
foram deles. Encaramos com preocupação a repetição,
com algumas variantes, dos factos que levaram ao golpe de Abril.
Temos mostrado altos níveis de tolerância, para não
cair em provocações», embora, parafraseando
Clausewitz, diga que «podem surgir tantos obstáculos
na vida política do país que o exército se
veja obrigado a ter de os varrer». Quando? «Às
vezes parece que é iminente, mas, outras vezes, há
quem tente dar repercussão nacional às situações
locais».
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