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Caracas / Venezuela - Martes 13/05/03
 

Raúl Baduel
Oposição «está a brincar com fogo»
Gilberto Lopes ( en Caracas) / Diario de Noticias (Portugal) / 18 de Dezembro de 2002

A Venezuela está ameaçada pela violência política, o país está semi-paralisado por uma greve que entrou já na terceira semana, para exigir a renúncia do Presidente Hugo Chávez. Um dos principais objectivos da greve é a paralisação da indústria mais importante do país, a do petróleo. «Estão a brincar com fogo, com uma lata de gasolina nas mãos», disse ao DN o general Raúl Baduel, pára-quedista, comandante da IV Divisão Blindada, com sede na cidade de Maracay, 105 quilómetros a oeste de Caracas.

Foi daqui que saíram, na noite de 13 de Abril passado, os três helicópteros com 48 homens para resgatar Chávez das mãos de um comando da marinha, na ilha de La Orchila, onde um avião americano esperava, provavelmente para o levar para o exterior. Abortaram assim uma tentativa de golpe de Estado que, durante pouco mais de 24 horas, levou a oposição ao Poder. Baduel comandou a operação.

Nunca levanta a voz, mas os seus olhos brilham e não esconde a dor, quando conta como opositores foram insultar o seu pai ao hospital onde estava internado. Ou quando uma mulher o insultou, diante das câmaras de televisão, e, depois, os meios nada mostraram. «Se eu tivesse feito um gesto contra essa mulher, todos o teriam divulgado. São os meios de comunicação social que contribuem para criar este clima de ódio», diz o general, tocando um dos temas mais polémicos nesta crise política. A imprensa assumiu um papel militante, renunciando a toda a imparcialidade, passando a representar a oposição.

Na semana passada, os donos dos principais canais de televisão e jornais do país tiveram de explicar a sua posição aos jornalistas internacionais, que não entendiam a atitude por eles adoptada.

Na opinião de Baduel, «os meios criam um clima permanente de perigo e desassossego, obedecem a interesses, actuam como agentes políticos de alguns sectores contra o direito dos venezuelanos a ter uma informação objectiva».

O exército está preocupado com a situação. O seu comandante, o general Júlio Garcia Montoya, leu, pela TV, enquanto estávamos com Baduel, um comunicado, criticando a greve do petróleo, que qualificou de «sabotagem» e «atentado contra a sobrevivência do Estado».

Com uma linguagem cuidadosa, depois de ouvir o seu comandante, Baduel afirmou que «a insistência de alguns sectores numa solução abrupta» para a crise, «fora dos limites da Constituição, pode potenciar as condições para um processo de violência que não desejamos».

Para Baduel, os sectores em greve na empresa pública Petróleos de Venezuela (PDVSA) «usam os recursos de uma empresa do Estado para exigir uma saída inconstitucional do Presidente». A oposição acusou o Governo e as forças armadas de trazerem estrangeiros para mobilizar os barcos petroleiros paralisados. Baduel afirma não ter informação sobre isso.

Nestas condições, qual é o limite para o exército? Até quando estará disposto a esperar uma solução para a crise? Há duas semanas, o exército referiu que sabe «em que situações actuar e em que situações permanecer à margem».

Mas os limites, às vezes, não são claros. Um desses limites é a defesa da Constituição e da legalidade. «Parece que aqui há quem pense que os outros não têm direito a ocupar os cargos que foram deles. Encaramos com preocupação a repetição, com algumas variantes, dos factos que levaram ao golpe de Abril. Temos mostrado altos níveis de tolerância, para não cair em provocações», embora, parafraseando Clausewitz, diga que «podem surgir tantos obstáculos na vida política do país que o exército se veja obrigado a ter de os varrer». Quando? «Às vezes parece que é iminente, mas, outras vezes, há quem tente dar repercussão nacional às situações locais».


 
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